Será que existe um poder “oculto” na nossa mente?

Existe uma “fórmula” para aprender a lidar melhor com a endometriose?

Você já deve ter se perguntado por que algumas mulheres conseguem lidar melhor com a condição de ter endometriose e outras nem tanto. Isso é quase inevitável quando estamos nessa jornada, pois vez ou outra entramos naquele lugar um pouco mais frágil e passamos a nos comparar com a história do outro, verdade ou não? Quem nunca procurou por uma resposta mais fácil ou uma fórmula para lidar com um sofrimento?

Aqui temos um trato importantíssimo: falar a verdade sempre, mesmo que a princípio traga um certo desconforto, mas é importante identificar esse movimento para que possamos lidar melhor com ele. Tenho também certeza que isso não é uma regra, pode ser que realmente você nunca se comparou com a história de uma outra pessoa, que nunca buscou fórmulas, e se assim for, o texto a seguir ainda valerá como uma reflexão. Vamos juntas?

Quero iniciar por uma pergunta muito comum que recebo constantemente no consultório: será que aquelas mulheres que conseguem lidar melhor com a condição de ter endometriose assim o fazem, pois, sua doença e seus sintomas são mais leves?

Acho que antes de respondermos isso, vale uma pausa para pensarmos: o que é “lidar melhor” com a endometriose? Quando usamos essa expressão, estamos nos referindo ao modo como convivemos no nosso dia-a-dia com o fato de termos endometriose: como é dividir nossa existência com essa doença, como seguimos a rotina do nosso dia-a-dia incluindo todos os pontos que a endometriose afeta em nossa vida - que na história de cada uma pode ser diferente.

Fechando esse parêntese, voltemos à questão: lidar melhor com a endometriose está diretamente ligado ao grau da doença e seus sintomas? A resposta é: sim e não. Como assim? Sim, pois, obviamente aquela mulher que tem um grau mais leve da doença terá sintomas mais amenos e o convívio com a endometriose, de fato, pode culminar em algo relativamente melhor, porém aqui não quer dizer que não há sofrimento.

Outro ponto do mundo emocional que é muito importante ficar sempre claro é que o motivo, o tamanho e o significado de algo que traz sofrimento para uma pessoa é incomparável e que, portanto, não deve ser julgado. Diante de uma mesma situação, a forma como cada pessoa vive esse momento é único e particular, portanto “sofrimentos não se medem, não se comparam”... cada um tem o seu próprio modo e tempo de vivê-lo e de superá-lo.

Na resposta “não” à esta questão é que reside um ponto extremamente importante e diferente para reflexão: no meu contato com as mulheres com endometriose que passam por tratamento psicológico comigo, deparo-me com casos clínicos extremamente graves, graus avançados da doença, sintomas intensos e incapacitantes. O “normal” aqui seria respondermos de imediato que essas mulheres não lidam bem com a endometriose, não seria? Aí que está, precisamos sair do nosso modo automático de enxergar as coisas e ampliar nossa mente para, de fato, nos darmos a chance de perceber claramente a vivência de cada pessoa. Nesses anos de atendimento à mulher com endometriose, as histórias que me atravessam, somam em mim novos olhares e entendimentos da grandeza que reside em cada uma de nós. Diferente da resposta automática, eu tenho a certeza em afirmar que, independente do grau e da gravidade da doença e dos sintomas, existem sim mulheres que lidam bem com a endometriose no seu mais alto sofrimento físico. E como isso é possível?

Quando olhamos uma situação de frente, entendemos o que e como aquela situação impacta nossa vida, pesquisamos e constatamos os fatos, com ajuda de especialistas entendemos como viver e como é possível trilhar esse percurso, estamos conectados com o nosso aqui-agora e, com o pé no chão, a clareza de como seguir, reconhecemos o passo a passo da jornada individual, o que fazer com cada ponto de sofrimento, com cada alteração que a endometriose traz e isso nos empodera a seguir. Essa é a ‘fórmula’ que vejo as mulheres, no seu mais alto grau de sofrimento físico, conseguir forças para enfrentar o convívio com a endometriose. Posso assegurar ser um convívio assertivo, não vazio de sofrimento, mas adaptado à situação daquele momento, uma adaptação móvel, passível de ser ajustada a cada nova necessidade. Se pudéssemos falar em uma “fórmula” para “conviver bem” com a endometriose, seria essa.

E de onde vem essa força para seguir em frente, apesar de tamanho sofrimento? De algo tão intangível que erroneamente muitas vezes é negligenciado: o poder da nossa mente. Somente através da força psíquica, da inteireza emocional, do seu propósito de vida ativado é possível seguir adiante.

Então, esse “oculto”, não é tão oculto assim, certo? Nem tão clichê. O poder oculto da mente não tem nada de oculto, impossível ou misterioso... Ele está aí ao seu dispor, é ele que te faz acordar todos os dias, sua mente comanda e dá o tom. É a potência real e verdadeira que cada uma de nós traz em nosso ser: nosso próprio brilho, a força da nossa história, a beleza da nossa missão pessoal aqui neste lugar, neste aqui-agora! A força do nosso psiquismo, da nossa mente! Se ela está livre de preocupações que nos atrasam e conectada com o que traz saúde, temos nosso equilíbrio e inteligência emocional ao nosso dispor para lidar com cada ponto de sofrimento.

Eu poderia citar muitos nomes de mulheres com endometriose que assim seguem a sua vida, histórias de sofrimento, mas também de superação. Isso é uma jornada: quando não deixamos de aprender, evoluir, transformar, nos perder e nos encontrar, mesmo onde estiver o sofrimento, ele não é um impeditivo. É um desafio.

Siga, sempre existe um jeito. A vida é o que é, não se lamente, entenda e siga.

Estamos aqui para te ajudar, afinal não é um caminho fácil, mas é um caminho possível.

#juntasemumasóvoz

Texto escrito por Lilian Donatti

Psicóloga Lilian Donatti

Doutoranda em Ciências Médicas pela USP, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental pelo CTCVeda-SP, pós-graduada em Psicologia Clínica pela PUC-SP, graduada em Psicologia pela UNIFMU, psicóloga clínica em consultório particular. Criadora do Projeto PsicoEndologia – o tratamento emocional da endometriose por meio da Terapia Cognitivo-comportamental. Autora do livro: “O lado emocional da endometriose.”