Um diagnóstico menos invasivo: ultrassom transvaginal

Ela começou com uma história não muito incomum.

Os sintomas surgiram aos 16 anos, mas o diagnóstico só veio aos 21 anos. Ela foi convencida pelos médicos de que a “dor estava na cabeça dela.”

Afinal, ela era muito nova para desenvolver a endometriose.

Ela tornou-se mais uma dentre as muitas mulheres que convivem com uma doença ginecológica crônica - a endometriose.

Por que esse tipo de situação é comum? Porque diagnosticar a endometriose não é simples e nem rápido.

Diagnosticar a doença é uma etapa crítica na saúde das pacientes, pois só assim, é possível fornecer o tratamento adequado e correto.

E esse diagnóstico é feito pela laparoscopia.


A Laparoscopia

O diagnóstico padrão da doença é a laparoscopia, uma técnica cirúrgica capaz de identificar os três tipos de endometriose: peritoneal, ovariana e profunda. Entretanto, o procedimento é invasivo e envolve riscos, atrasos no diagnóstico e muitas vezes, pode ser desnecessário.

Todavia, os estudos científicos mais recentes da área apontam para uma outra forma de diagnóstico.


O ultrassom.

O Instituto Nacional de Saúde e Cuidados desenvolveu um guia baseado em evidências científicas para os profissionais da saúde.

Nesse guia, há a recomendação para a realização do ultrassom transvaginal em pacientes com sintomas sugestivos para a endometriose.

A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia também fala do uso do ultrassom como forma de diagnóstico da endometriose. Os protocolos de Atenção à Saúde da Mulher do Ministério da Saúde explicam essa abordagem.

Essa técnica é segura e permite a observação, através de ondas ultrassônicas, do útero, trompas de falópio e ovários, indicando quando há algo estranho.

Um estudo de 2016 mostrou algumas evidências dos benefícios do uso do ultrassom transvaginal para o diagnóstico da endometriose. Este estudo, de caráter de revisão, incluiu outros estudos que avaliaram o uso dessa técnica no lugar da laparoscopia.

Os pesquisadores concluíram que em pacientes com sintomas sugestivos para endometriose, foi possível identificar a endometriose durante o exame.

Entretanto, um resultado negativo de ultrassom não exclui a possibilidade da endometriose, e nesses casos, é necessário recorrer a outras técnicas investigativas.

O ultrassom é mais do que apenas um teste de diagnóstico. É um teste capaz de ajudar as pacientes e seus médicos a entenderem a gravidade da doença. Um profissional altamente treinado para identificar a endometriose utilizando o ultrassom é importante nesse processo.

O resultado negativo desse ultrassom indica que não há endometriose ovariana ou profunda com infiltração para outras regiões. Todavia, a paciente pode ter uma endometriose superficial, que não é detectada por essa técnica, por exemplo.

Por outro lado, quando o diagnóstico de endometriose ovariana ou profunda é comprovado, isso elimina a necessidade de submeter a paciente a laparoscopia.

A comunidade médica e científica afirma que as pacientes com sintomas de endometriose ou com histórico familiar podem se beneficiar com essa técnica, desde que executada por um profissional qualificado.

Inclusive, isso deve ser um motivador para que os profissionais aprendam e se especializem na área, para poderem realizar o diagnóstico correto.

Em 2019, um grupo de investigadores descreveu que o ultrassom transvaginal é capaz de ajudar na identificação de endometriose profunda. Os achados clínicos com essa técnica evidenciam a importância no diagnóstico da doença. Inclusive, esse estudo corrobora com outros que também mostram como o uso do ultrassom pode diagnosticar a endometriose em pacientes sintomáticas.

Mais importante, é que é uma técnica simples, e de alta acurácia.

A detecção precoce da endometriose é importante para prover uma melhor qualidade de vida às pacientes. E evitar que elas sofram de dores por anos. Além de reduzir as complicações a longo prazo da doença, assim como, impedir a infertilidade.

Essa mudança de vida, com diagnóstico precoce e início do tratamento, não deve ser atrasada na falta de laparoscopia, principalmente quando há uma técnica mais simples e barata, como o ultrassom.

Juntas em uma só voz!


Artigo escrito por Lavínia Romera.


Referências:de Oliveira JGA, Bonfada V, Zanella JFP, Coser J. Transvaginal ultrasound in deep endometriosis: pictorial essay. Radiol Bras. 2019 Sep-Oct;52(5):337-341. doi: 10.1590/0100-3984.2018.0019. PMID: 31656353; PMCID: PMC6808616.Chronic Disease; Cross-Sectional Studies; Diagnostic Imaging [*methods]; Endometriosis [*diagnosis, pathology]; Female; Humans; Magnetic Resonance Imaging; Ovarian Diseases [diagnosis, surgery]; Pelvis; Positron-Emission Tomography; Randomized Controlled Trials as Topic; Sensitivity and Specificity; Ultrasonography. DOI: 10.1002/14651858.CD009591.pub2Brasil. Ministério da Saúde. Protocolos da Atenção Básica : Saúde das Mulheres / Ministério da Saúde, Instituto Sírio-Libanês de Ensino e Pesquisa – Brasília : Ministério da Saúde, 2016. 230 p. : il. ISBN 978-85-334-2360-2Podgaec S, Caraça DB, Lobel A, Bellelis P, Lasmar BP, Lino CA, et al. São Paulo: Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO); 2018. (Protocolo FEBRASGO - Ginecologia, no. 32/ Comissão Nacional Especializada em Endometriose).Imagem: por Christopher Gower, Unsplash.