Um atlas para a endometriose

por Lavínia Romera

Uma das coisas que aprendi na área científica foi que para entendermos uma doença, precisamos escavar até o fundo de forma, a encontrar a origem. É como se procurássemos por peças e depois as juntamos em um quebra cabeça.

A endometriose é uma doença, ainda, pouco falada, pouco discutida e pouco estudada. Por diversos motivos (discorridos em um outro texto aqui) não entendemos o motivo da endometriose. Se ainda há falha no diagnóstico, imagine no entendimento da doença.


Como tratar uma doença se não a compreendemos totalmente?

A endometriose é uma doença crônica, caracterizada pelo crescimento de um tecido similar ao endométrio fora do útero. Esse crescimento anormal é o que provoca a dor pélvica, tão avassaladora para a maioria das pacientes.

Entretanto, pouco se sabe sobre a fisiopatologia da doença. E é exatamente sobre isso que precisamos falar.

Um estudo publicado em julho de 2022, na Nature Cell Biology, fez uma caracterização de lesões de peritônio e ovário de 14 pacientes. Essa caracterização foi uma análise conhecida como transcriptoma de célula única.

Esse tipo de análise permite identificar os chamados “programas de transcrição” de forma individual de cada célula, e com isso mapear a formação das lesões e como o sistema imunológico se comporta.

Calma, não é coisa de outro mundo. Isso é a ciência tentando explicar como ocorre a doença para podermos ter uma ideia melhor de como tratar.


As características das lesões

Todas as pacientes estavam recebendo terapia hormonal, a estratégia mais comum para o tratamento. E por isso mesmo, não foi surpreendente que a composição celular das lesões do peritônio fosse similar ao do endométrio.

Por outro lado, as lesões do ovário possuem diferenças enormes quando se avalia a composição e expressão de genes. Esses achados indicam que o ambiente de formação da lesão pode interferir no método de escolha do tratamento. Afinal, cada lesão aparenta ser diferente uma da outra, e o tratamento deveria considerar isso.


Vigilância imunológica

Um aspecto curioso da endometriose é que as lesões anormais que crescem deveriam ser eliminadas com a vigilância imunológica. Mas isso não acontece.

O estudo investigou o comportamento das células imunológicas, de forma a entender o porque não eliminam essas células anormais.

Foi observado que duas células, macrófagos e células dendríticas, contribuem para que as condições do ambiente da lesão promovam o crescimento e desenvolvimento das células anormais. É como se essas células tivessem uma venda nos olhos, e deixassem tudo acontecer ao redor delas.

Mais curioso, foi perceberem que essas células possuem características similares ao encontrado durante a gravidez, quando as células da mãe criam tolerância para não prejudicar o feto.

Esse achado sugere que a endometriose acontece naturalmente, com um processo imunológico envolvido que permite a formação das lesões e sua persistência.


É necessário melhorar o conhecimento sobre a endometriose

O artigo também toca em outros aspectos, como a vascularização e regeneração do endométrio. Existem uma diferença no processo de vascularização entre as lesões de peritônio e ovário. Uma população de células endoteliais (de tecido) pode ser a responsável por originar as células tanto do endométrio quanto das lesões. Mas esse dado precisa ser mais investigado.

Os autores comentam que é importante investigar a complexidade do microambiente que envolve a endometriose. Quando entendermos essa complexidade, poderemos desenvolver novas formas efetivas de diagnóstico e terapia.


Por que estudos assim são importantes?

Esse estudo ajuda na construção de uma fundação robusta sobre um melhor entendimento da endometriose, e de como se desenvolve. É incrível esse progresso científico que pode ajudar em melhorar o diagnóstico e tratamentos mais personalizados.

Os dados obtidos por esse estudo capturam a completa descrição do endométrio e das lesões, permitindo criar uma fundação sólida de conhecimento sobre o papel que a dinâmica celular e molecular tem na doença.

Ou seja, é como a criação de um atlas.

Com as pequenas peças, como os dados celulares e moleculares, podemos criar um guia de conhecimento sobre a endometriose. E esse guia será essencial para futuras formas de terapia e diagnóstico.

E assim, ajudar as pacientes que convivem diariamente com essa doença.

Interessante, não é mesmo?


Referência: Tan, Y., Flynn, W.F., Sivajothi, S. et al. Single-cell analysis of endometriosis reveals a coordinated transcriptional programme driving immunotolerance and angiogenesis across eutopic and ectopic tissues. Nat Cell Biol 24, 1306–1318 (2022). https://doi.org/10.1038/s41556-022-00961-5.Imagem: Unsplash por Gwen Mamanoleas.