Por que há (ainda) tão pouca pesquisa sobre a endometriose?

A saúde feminina sempre esteve em meio a vários tabus. Falar sobre nosso sistema reprodutivo ou sobre como lidamos com as etapas da vida é como entrar em águas perigosas. Não sabemos como as pessoas vão lidar com esse assunto. Nossas mães e avós ficam envergonhadas, e aos poucos vamos aprendendo a falar cada vez menos desses assuntos.

Dos nossos assuntos.


A menstruação vem. E junto com ela, o tabu.

Eu me lembro da minha primeira menstruação. Um desconforto. Uma dor incômoda. Ter que usar absorventes. Mas não podia reclamar, afinal, é algo que toda mulher passa.

A menstruação está presente na nossa vida. A maiorias de nós começa a menstruar entre 9 e 15 anos, com ciclos mensais contínuos até atingir a menopausa. Que normalmente acontece perto dos 52 anos. Vivemos, pelo menos, 450 períodos durante a nossa vida inteira.

Então por que não podemos falar abertamente disso?

Repare que quando estamos menstruadas, falamos que “estamos naquele período do mês” ou “naquela semana” ou “estamos mocinhas”. Posso listar muito mais expressões que se referem a menstruação, mas nunca falamos: estamos menstruadas.

A menstruação, uma experiência, que pelo menos 50% da população feminina adulta vive, raramente é discutida ou mencionada. E pior, pouco estudada pela ciência.

Um tabu talvez por que a sociedade ainda é relutante em falar abertamente sobre a dor que pode acompanhar a menstruação? E isso será um dos motivos pelos quais a saúde reprodutiva feminina é pouco reconhecida e pouco estudada?

Para 20% das mulheres, a menstruação é apenas algo inconveniente. Mas, para mais de 80% das mulheres, a menstruação está acompanhada de dor.

1 em cada 4 mulheres sofrem de dores severas que diretamente impactam a vida delas.

A dor menstrual é normalizada como parte de ser mulher.

Muitas mulheres conseguem controlar essa dor com medicamentos analgésicos, dietas e práticas esportivas.

Entretanto, a dor debilitante é pouco discutida e investigada. A menstruação importa, e não deve ser acompanhada de dor severa e nem debilitação.

Se isso acontece, há algo que precisa ser investigado. Para uma dor persistente e que não responde ao tratamento de dor, a causa pode ser a endometriose.

A doença escondida

Endometriose é uma doença crônica, inflamatória e está associada com uma dor pélvica crônica debilitante. Estima-se que afeta entre 6 e 10 % das mulheres em idade reprodutiva no mundo inteiro. O diagnóstico só é considerado quando encontramos a presença de tecido do endométrio (lesões) fora do útero, e normalmente, isso acontece por cirurgia.

Mulheres que convivem com a endometriose experimental períodos com dor intensa e inflamação aguda. Esses sintomas são resultado do tecido similar ao endométrio que cresce fora do útero, atingindo outras partes do corpo. A cada ano, a doença afeta milhares de mulheres, forçando-as a perderem dias de trabalho, deixando de praticar atividade esportivas, atividade extracurriculares, e perderem semanas na escola.

O “espalhamento” da endometriose, juntamente com poucas opções de tratamento, deve ser considerado uma emergência de saúde pública.

Uma dor contínua

Meninas e mulheres sofrem com a doença. uma dor que pode persistir por semanas, e nada do que fazemos pode ajudar. É trágico ver uma menina ativa sucumbir a uma dor que a deixa de cama. É trágico não entender a doença, e nem a dor.

O diagnóstico não é fácil e nem rápido. De acordo com o Instituto Nacional de Saúde dos EUA, a maioria das pacientes recebem o diagnóstico de endometriose após 10 anos do início dos sintomas.

Quanto mais cedo os sintomas surgem, mais tempo leva para receber o tratamento correto. O que começa com uma dor pélvica, menstrual raramente é diagnostica como endometriose. Os sintomas são ignorados pelos médicos, pelas pacientes, e por pessoas ao seu redor.

A menstruação é tabu. A dor também. E a endometriose permanece escondida.

A falta de pesquisa não é o único problema.

A doença é uma condição complexa. Os sintomas variam de mulher para mulher, e os médicos consideram várias condições antes da endometriose. Isso é um dos fatores que também dificulta os estudos com a endometriose. Por onde começar?

Na ciência precisamos de modelos in vitro e in vivo. Nos modelos in vivo, os animais são utilizados. Apesar dos primatas serem os modelos mais próximos dos seres humanos, é controverso sua utilização.

Interessantemente, um grupo de pesquisa liderado pela Prof. Philippa Sauders, chefe da área de esteroides reprodutivos da Universidade de Edinburgo, está desenvolvendo um modelo de camundongo para estudar a endometriose. Modelos de estudos em camundongos são os mais utilizados na ciência.

A ideia é investigar o início da doença, e com isso encontrar os famosos “biomarcadores” da doença no sangue de pacientes. Uma tentativa de ajudar na identificação da doença antes de começar os danos no organismo.

Esse tipo de avanço, entretanto, só é possível quando a população pressiona os governos, os profissionais clínicos para financiarem os estudos sobre a doença.

Historicamente, houve limites de investimento na saúde feminina, e com isso, pouco investimento em doenças como a endometriose.

Tão pouco investimento, que até hoje não sabemos a causa da doença. e sem saber a causa, não há como descobrir a cura.

Sem investimento em pesquisa e ciência, a endometriose continuará a existir na próxima geração de mulheres.

Mas além da necessidade de fundos de investimento, é necessário quebrar o tabu.

É necessário falar sobre a saúde feminina. E levar essas discussões para os governantes, para os cientistas, para os profissionais de saúde, para a sociedade.

Só assim, avançaremos na luta contra a endometriose.


Artigo escrito por Lavínia Romera


Referências:

Agarwal, S.K., Chapron, C., Giudice, L.C., Laufer, M.R., Leyland, N., Missmer, S.A., Singh, S.S., Taylor, H.S., 2019. Clinical diagnosis of endometriosis: a call to action. American Journal of Obstetrics and Gynecology 220, 354.e1–354.e12.. doi:10.1016/j.ajog.2018.12.039

Saunders, P.T.K., Horne, A.W., 2021. Endometriosis: Etiology, pathobiology, and therapeutic prospects. Cell 184, 2807–2824.. doi:10.1016/j.cell.2021.04.041

Medical News Today: endometriosis: why is there so little research.

Edinburgo University. Inflammation research. Proferros Philippa Saunders.

CNN. https://edition.cnn.com/2018/03/27/opinions/endometriosis-start-a-conversation-hatch-opinion/index.html

Imagem: Unsplash por Julia Koblitz.