Por que eu tenho endometriose?

Após o diagnóstico da endometriose, essa pergunta fica entrelaçada no subconsciente das pacientes. Por que?


A endometriose ainda permanece incompreendida. Escondida, se mantém obscura. Pouco discutida e com poucas informações corretas disseminadas.


Ainda não se sabe exatamente as causas da endometriose. A ciência ainda não conseguiu revelar todos os mecanismos por trás da doença. A patogênese (como ocorre a doença) está sendo descoberta aos poucos.


É exatamente sobre esses mecanismos da patogênese que um estudo científico focou em 2018. O estudo, publicado em uma revista científica internacional, revela os mecanismos moleculares e celulares da endometriose.


Entender o desenvolvimento da doença, especialmente a nível celular e molecular, permite que a ciência progrida de tal forma, que facilite a descoberta de terapias avançadas, modernas e personalizadas. Algo imprescindível para nossas pacientes.


Teorias do desenvolvimento da endometriose


A patogênese da doença ainda é pouco compreendida e controversa. Muitas teorias já foram propostas: (1) teoria de implantação, (2) teoria da metaplasia, (3) teoria da indução, (4) teoria da endometriose e (5) teoria de pluripotência da endometriose.


Recentemente, uma nova teoria surgiu e está relacionada com o desenvolvimento da endometriose associada com processo inflamatório e ativação nos nervos periféricos em resposta aos “restos” (debris) menstruais, provenientes de lesões endométricas de menstruação extrauterina e retrógrada.


A teoria mais aceita é baseada na suposição de que pequenas lesões são estabelecidas, crescem e invadem os tecidos adjacentes, levando ao desenvolvimento da doença. Nesta teoria, a origem do tecido endometrial na cavidade pélvica é transportado por células endometriais menstruais.


Esse conjunto de células “grudam” no peritônio, proliferam e se diferenciam, e invadem os outros tecidos. Pode ocorrer a dispersão dessas células pelo sistema linfático, o que explica lesões em locais mais afastados, como lesões torácicas ou endometriose cerebelar.


Mas, afinal, como ocorre o desenvolvimento da endometriose?


Entendendo a fisiopatologia da Endometriose


Em todas as mulheres, fisiologicamente falando, as células do endométrio descamam quando não ocorre a fecundação. E a liberação ocorre na forma de menstruarão. Esse é um processo normal, e ocorre mensalmente.


A menstruação contém as células do endométrio. Essas células se desprendem porque sofrem um processo chamado de apoptose celular. Como não houve a fecundação, o sistema imunológico promove a limpeza do endométrio, com retirada destas células pelo mecanismo de apoptose.


E na endometriose?


O processo é iniciado com a descamação das células do endométrio, mas elas conseguem entrar na cavidade pélvica. Além das células, há liberação de partículas chamadas exossomos, que também migram para a cavidade pélvica. A migração desses exossomos acontece mesmo quando não há menstruação.


Na cavidade pélvica, as células do endométrio que chegaram, se depositam na superfície pélvica, e inicia o processo de lesão. São as chamadas lesões ectópicas.


Essas lesões seriam normalmente reparadas pelo sistema imunológico, mas na endometriose isso não acontece. As lesões escapam do sistema imune e progridem, originando um processo inflamatório, com mediadores de inflamação.


Os exossomos que também estão presentes podem retornar aos tubos de falópios e cavidade uterina, e quando voltam, modulam os eventos de inflamação no endométrio. Levando a injúria. E a dor.


Desenvolvimento da endometriose


A endometriose se desenvolve devido a diversos fatores. Entre eles, um ambiente permissivo que facilita a progressão das lesões associado com uma disfunção do sistema imunológico.


Evidências científicas sugerem que as pacientes com endometriose possuem uma menor quantidade de macrófagos (células do sistema imune) e alteração das populações de leucócitos, que secretam níveis anormais de mediadores inflamatórios e induzem a formação de novos vasos.


Ou seja, além do refluxo menstrual do endométrio presente na cavidade peritoneal, há alterações de fatores imunológicos, formação de autoanticorpos, e perda da da atividade de células imunológicas. Que facilitam a progressão da endometriose.


Um ponto chave, é que qualquer alteração imunológica pode ser considerada um fator de desenvolvimento da endometriose, pois o sistema imune não consegue atuar corretamente, ele não retira as células do endométrio.


Afinal, por que eu tenho endometriose?


O desenvolvimento da endometriose é restrito a uma permissividade do ambiente peritoneal que favorece a implantação e crescimento das células endometriais. E que acontece apenas em um subgrupo de mulheres.


Ou seja, o desenvolvimento depende não apenas da localização da lesão e da profundidade do infiltrado celular, mas também de diversos fatores como hormônios, citocinas (mediadores inflamatórios), fatores de crescimento e outros fatores presentes no peritônio ou fluído ovariano ou corrente sanguínea.


As evidências científicas revelam a multifatoriedade do surgimento e desenvolvimento da doença. Ainda não se sabe exatamente por que algumas mulheres desenvolvem a endometriose, mas aos poucos, estamos descobrindo as bases celulares e moleculares relacionadas com a doença.


A compreensão da fisiopatologia da doença abre caminhos para surgimento de novas terapias. Que podem trazer alívio e melhorar a qualidade de vida das pacientes.


Não há uma resposta para a pergunta inicial. A endometriose pode se desenvolver devido a vários fatores. Cabe a nós entender e ajudar nossas pacientes.


Artigo escrito por Lavínia Romera



Fonte:

Molecular and Cellular Pathogenesis of Endometriosis.

Petra A.B., Klemmt, Anna Starzinski-Powitz.

Curr Womens Health Rev. 2018.

Published online 2018.

Doi: 10.2174/1573404813666170306163448.


Imagem: Unsplash por Eric Ward