Fluxo menstrual para investigar a endometriose

Não é normal sentir muita dor quando menstruamos. Não é normal que essa dor a impede de ir à escola, trabalhar ou qualquer outra atividade. Dor acima do normal é um sinal de que é hora de procurar ajuda médica.


A endometriose é uma doença de difícil diagnóstico. Muitas mulheres recebem seu diagnóstico após 10 anos de início dos sintomas.


Entretanto, sabemos que um diagnóstico precoce permite um tratamento mais certeiro, reduzindo a gravidade da doença e promovendo qualidade de vida.


Mas isso não é o que acontece.

O diagnóstico padrão ouro é a laparoscopia.


Quando há suspeita de endometriose, o método utilizado para confirmar a doença é a laparoscopia. Conhecida como técnica ou padrão ouro de diagnóstico.


Isso porque ainda não há outra técnica tão eficiente quanto.


A laparoscopia é uma pequena cirurgia, realizada com anestesia geral. Nesse procedimento, é inserido um tubo com uma luz (laparoscópio) na cavidade abdominal por uma pequena incisão acima do umbigo. Isso permite que o médico visualize o tecido endometrial na pelve.

Mas em meio a tantos avanços científicos, porque ainda não há um método de diagnóstico menos invasivo do que a laparoscopia?

Foi pensando nisso que um grupo de pesquisadores propuseram uma forma alternativa de diagnóstico da endometriose.

Nova forma de diagnóstico?

O estudo mostrou que há possibilidade em usar organóides do fluxo menstrual para detectar a endometriose.

Mas o que são organóides?

São um sistema organizado e de cultura tridimensional que pode ser cultivado em laboratório e refletem a estrutura e funções do tecido de origem. Podem ser derivados de muitos tecidos, e são usados como ferramentas para investigar modelos de doenças.

Normalmente, os organóides são derivados de biópsias. Mas neste estudo, os pesquisadores investigaram se era possível obter organóides do fluxo menstrual.

Primeiro, os pesquisadores tiveram que confirmar que os organóides refletem os achados encontrados na laparoscopia. Eles descobriram que dois grupos de organóides compartilham a mesma assinatura de transcriptoma.

O transcriptoma é o reflexo do genes que expressamos. Possuírem a mesma assinatura de transcriptoma indica que possuem os mesmos genes expressos.

Os resultados do estudo demonstram que o fluxo menstrual contém uma quantidade considerável de células viáveis que podem ser utilizadas para culturas de organóides. Mais ainda, a análise de transcriptoma revelou que esses organóides provenientes do fluxo menstrual são idênticos aos encontrados na biópsia do endométrio.

Os autores acreditam que esses dados validam o uso do fluxo menstrual como uma possibilidade não invasiva e alternativa para as biópsias do endométrio.

Não podemos dizer ainda que essa técnica poderá substituir a laparoscopia, mas pode ser uma forma de diagnóstico alternativo. E que ajuda a comunidade médica a identificar a doença o mais cedo possível.

Estudos ainda continuam. Muita pesquisa ainda está sendo realizada, para tentar ajudar a melhorar tanto o diagnóstico, como o tratamento. E qualidade de vida.

Lembrem-se, não acredite que sentir dor é normal. É necessário falarmos sobre isso.

Juntas em uma só voz!

Artigo escrito por Lavínia Romera


Fonte:Cindrova-Davies, T., Zhao, X., Elder, K. et al. Menstrual flow as a non-invasive source of endometrial organoids. Commun Biol 4, 651 (2021).Imagem: Unsplash por Monika Kozub