Fluido endometrial: pode ajudar no diagnóstico da endometriose?

Um dos maiores desafios da endometriose é achar uma forma de diagnóstico não-invasivo. E antes que a doença progrida.


A cirurgia é considerada o padrão ouro para o diagnóstico da endometriose. Mas esse diagnóstico normalmente é tardio, e pode demorar até 10 anos.


O diagnóstico precoce é fundamental para melhorar a qualidade de vida da paciente. Pode ajudar a evitar os efeitos adversos associados aos tratamentos farmacológicos desnecessários. E prevenir sequelas da progressão da doença, como adesão pélvica e infertilidade.


Mas como pode ser feito esse diagnóstico precoce?


Uma abordagem interessante e que vem sendo estudada é identificar biomarcadores. Eles possuem a “assinatura” da doença. Isso significa que a doença deixa um rastro no organismo, e quando o encontramos, identificamos a doença.


Ainda não sabemos quais biomarcadores podem ser usados para o diagnóstico. E que tenha a sensibilidade e especificidade que a cirurgia.


O endométrio na endometriose possui características únicas, como aumento da produção de esteróides e citocinas inflamatórias. São esses fatores que poderiam funcionar como biomarcadores da doença.


Um outro problema é que a maioria dos estudos que focam nos biomarcadores, fazem a coleta a partir da biópsia. Que sempre é invasiva, causa dor e desconforto, principalmente em mulheres que já possuem dor pélvica crônica.


O fluido endometrial é bem menos invasivo que a biópsia, requerendo apenas um instrumento para aspirar o fluido. Esse tipo de técnica já é aplicada para diagnóstico de gravidez, e poderia ser usada para a endometriose.


Como?


Citocinas inflamatórias e fatores de crescimento são importantes para o desenvolvimento da endometriose. Diversos estudos mostraram que o fluido peritoneal e o soro de pacientes com endometriose possuem altos níveis de citocinas inflamatórias.


Talvez, o fluido endometrial também contenha essas substâncias.


Pensando dessa maneira, um grupo de pesquisadores nos Estados Unidos, realizou um estudo com 60 mulheres para avaliar se há aumento dos níveis de citocinas inflamatórias (como IL-1, IL-6, IL-8), fatores de crescimento do endotélio de vasos (VEGF) e de uma proteína que atrai os monócitos (MCP-1). Eles procuraram todas essas substâncias no fluido do endométrio.


O estudo foi feito com mulheres portadoras de endometriose e sem endometriose. Assim, eles determinaram se há aumento dessas substâncias quando há endometriose. E avaliaram o perfil do fluido endometrial.


Os pesquisadores perceberam que o fluido endometrial pode ser considerado uma forma segura e efetiva na avaliação da endometriose.


Um achado interessante foi que a combinação de citocinas inflamatórias não ajuda no diagnóstico quando a paciente está na fase inicial da doença. Essas citocinas são detectadas quando a paciente está nos estágios mais avançados.


Apenas uma substância foi detectada no início da doença. O VEGF. Entretanto, ele sozinho não pode ser considerado um diagnóstico completo da doença.


Apesar dos dados não mostrarem tantos resultados positivos, o estudo evidencia que o fluido endometrial pode ser considerado como uma forma de diagnóstico minimamente invasiva.


Antes de qualquer conclusão, devemos considerar que esse estudo foi apenas um. Outros são necessários. E com um número maior de pacientes.


A identificação de biomarcadores ainda está em desenvolvimento. E possui um futuro muito promissor para a endometriose.


Como conclusão, podemos dizer que ainda não temos uma forma de diagnóstico precoce não invasiva, mas continuamos investigando. E os dados são promissores.


No futuro, talvez, teremos uma forma de diagnóstico melhor do que a atual.


Artigo escrito por Lavínia Romera

Fontes:Llarena NC, Richards EG, Priyadarshini A, Fletcher D, Bonfield T, Flyckt RL. Characterizing the endometrial fluid cytokine profile in women with endometriosis. J Assist Reprod Genet. 2020;37(12):2999-3006. doi:10.1007/s10815-020-01989-y.Imagem: Unsplash, por Clem Onojeghuo.