Existe relação entre endometriose e câncer de mama?

Uma doença que afeta 10% das brasileiras.

A endometriose é uma doença complexa. Dolorosa. Causadora de grandes transtornos, inclusive emocionais.


A doença se caracteriza pelo desenvolvimento de um tecido similar ao endométrio em locais fora do útero. Controversa e pouco discutida. Acomete muitas mulheres no Brasil e no mundo.

Mas um questionamento que permeia e causa muitas dúvidas, é a relação com câncer de mama.

É muito comum associarmos a endometriose com câncer, como de mama e de ovário. Mas será que há essa relação?

Será que as alterações anormais características do câncer estão de alguma forma conectadas com a inflamação e dor da endometriose?


Endometriose e câncer: fatores de risco?

Sabemos que ambas as doenças compartilham alguns fatores de risco no desenvolvimento, como idade da menarca. E que muitos tratamentos para a endometriose, como contraceptivos orais, podem ser um fator de risco para o surgimento do câncer de mama.

Na literatura médica e científica é difícil encontrar um meio termo para as duas doenças. Existem questionamentos sobre a real conexão entre as doenças.

Entretanto, sabemos que os fatores de risco do câncer de mama diferem de acordo com os receptores de hormônios e a entrada na menopausa. Fatores de risco que não estão necessariamente ligados com a endometriose.


Nurses’ Health Study II: estudo científico

Interessantemente, um estudo conduzido por 24 anos, investigou a relação entre endometriose e câncer de mama. O estudo é chamado de “Nurses’ Health Study II.

O estudo começou em 1989 e inclui informações de 116.430 enfermeiras, entre 25 e 42 anos, diagnosticadas ou não com endometriose e/ou câncer de mama. Além de incluir informações sobre o ambiente, dieta e estilo de vida que podem ser associados com o desenvolvimento de ambas as doenças.

Durante os 24 anos, 5.389 mulheres (5%) foram diagnosticadas com endometriose e 4.979 mulheres (3%) com câncer de mama.

As análises estatísticas encontraram que as mulheres com endometriose não possuem risco maior de desenvolver câncer de mama, quando comparadas com mulheres sem endometriose, antes da menopausa.


Endometriose x Câncer de mama

Os dados do estudo mostraram que não há relação entre endometriose e aumento do risco de câncer de mama, nem no período pré ou pós menopausa.

Entretanto um dado curioso foi observado.

O estudo percebeu que há diferença na associação entre endometriose e câncer de mama, de acordo com o receptor de hormônio expresso nas células das pacientes.

Observou-se diferença de associação da endometriose com câncer de mama quando analisa o status dos receptores envolvidos. Embora a endometriose não tenha sido associada a tumores ER+/PR+ ou ER-/PR- (ER=receptor de estrogênio e PR=receptor de progesterona), a endometriose foi associada a um risco duas vezes maior de câncer de mama ER+/PR-.


Mecanismos por trás da endometriose e câncer de mama

O estudo enaltece que há muitos mecanismos potenciais escondidos e que podem associar a endometriose com o câncer de mama.

Um ambiente com alta quantidade de estrogênio está sendo considerado um fator de risco tanto para a endometriose quanto para o câncer de mama. Enquanto que há poucas evidências quando se analisa o câncer de mama na pré ou pós menopausa.

Outro ponto que deve ser considerado, é que pacientes com endometriose possuem elevados níveis de marcadores inflamatórios. A inflamação crônica está associada ao câncer de mama.

Alterações hormonais ou inflamatórias podem ser consideradas fatores que favoreçam um ambiente nocivo, para a endometriose e para o câncer de mama.


Considerações

O estudo conclui que a endometriose não está associada com risco mais elevado de câncer de mama. Entretanto, a endometriose está associada com um elevado risco de um tumor específico, o câncer de mama ER+/PR-.


No outubro rosa, somos uma única voz! Previna-se!


Artigo escrito por Lavínia Romera


Fonte:

Farland LV, Tamimi RM, Eliassen AH, et al. Laparoscopically Confirmed Endometriosis and Breast Cancer in the Nurses' Health Study II. Obstet Gynecol. 2016;128(5):1025-1031. doi:10.1097/AOG.0000000000001684


Foto: Unsplash por Ales Maze