Endometriose em adolescentes: a peculiaridade da doença

A endometriose em uma adolescente é como o sorriso da Mona Lisa, possui um ar de mistério junto com a inocência da idade. As reclamações entre as adolescentes são comuns. Mas não estimulam a verdadeira procura para encontrar a causa da dor.


Na prática clínica é muito comum os médicos ouvirem reclamações de dismenorreia e dor na região pélvica. E muitas vezes esses sintomas mascaram algo maior e mais grave. Uma doença que pode impactar diretamente a vida desses jovens e a própria fertilidade.


Mesmo após 100 anos de pesquisa sobre a doença, a endometriose permanece como uma doença de diagnóstico tardio.Isso ocorre devido a não adesão de ferramentas invasivas e não invasivas para o diagnóstico precoce.


A doença escondida

As meninas ou jovens que entram nos consultórios ginecológicos, reclamam de dor na região pélvica e dismenorreia. Sintomas que interferem no seu dia-a-dia. Os médicos começam o processo de investigação, para tentar entender o que elas têm. Normalmente, acabam tratando apenas os sintomas com medicamentos orais.


Mas ao voltarem para casa e começarem esse tratamento, elas não veem melhora dos seus sintomas, e a dor persiste. E elas são obrigadas a voltar ao consultório médico.


A endometriose, escondida, só será detectada por um exame de laparoscopia. Nesse exame, poderá observar a presença de endometriose peritoneal. Estudos mostram que 50% dessas adolescentes que sofrem de dor pélvica e dismenorréia, vivem com endometriose.


Elas faltam na escola durante o período menstrual. As faltas muitas vezes por períodos extensos.Normalmente o tratamento é feito com contraceptivos orais. Os sintomas se agravam como problemas gastrintestinais, diarreia, náusea e vômito. Junto com a dor abdominal e pélvica.


O diagnóstico tardio interfere na qualidade de vida dessas jovens, e na busca pelo seu sonho e sua vida. Os sintomas vão se agravando com o passar dos anos.


A progressão da doença

Existem muitas razões pelas quais é difícil, mas não impossível, verificar o avanço dessa doença em adolescentes.


No momento do diagnóstico, as lesões são tratadas por retirada cirúrgica. Após a cirurgia, uma segunda laparoscopia deve ser realizada. Mas o responsável pela técnica, muitas vezes, tem dificuldade em distinguir a progressão da doença com adesões pós-operatórias.


Sabe-se que lesões no peritônio podem aparecer e desaparecer como cogumelos em um campo. Mas podem ser identificados por microscópio eletrônico com biópsias.


A laparoscopia trans umbilical é ainda uma técnica invasiva. Não é recomendada clinicamente.


A progressão da doença pode ser acompanhada na realização da segunda laparoscopia. Diversos estudos vêm mostrando que com essa técnica é possível identificar o avanço da doença.


O risco de agravamento da endometriose se torna muito maior quando as pacientes atingem 16 anos ou mais.

A doença

A endometriose afeta 1 a cada 10 mulheres adultas. Entretanto, era considerada uma doença que afetava pouco as adolescentes. Os médicos sempre tratavam os desconfortos como sintomas da dismenorreia.


Em 2020 pesquisadores publicaram um estudo sobre o tema. Eles mostraram a verdade por trás dos sintomas.


Os cientistas perceberam que 64% das adolescentes que possuem sintomas (dismenorreia e dor pélvica) possuem endometriose. A severidade da doença é igual a encontrada em mulheres adultas. Com 10% das adolescentes convivem com a forma mais grave da endometriose.


A forma grave da doença na adolescência está associada com a quebra na formação educacional dessas jovens.


Interessante notar que existem formas alternativas de diagnóstico da endometriose. Podendo optar por ressonância magnética ou ultrassom. Essas técnicas permitem uma detecção mais precoce com investigação menos invasiva.


Essas alternativas de diagnósticos são como uma porta aberta para o manejo e tratamento da doença. Os médicos conseguem detectar a doença mais cedo e promover tratamentos individualizados. Uma tentativa de conter a progressão da doença.


O correto diagnóstico da doença permite o entendimento da endometriose. Libertam essas adolescentes e promovem a introdução de tratamentos corretos. Além de permitir uma rede de suporte para essas jovens.


Artigo escrito por Lavínia Romera


Referências:

  • Hirsch, M. et al. The prevalence of endometriosis in adolescents with pelvic pain: a systematic review. Journal of Pediatric and Adolescent Gynecology. vol 33, issue 6. 2020. Doi: 10.1016/j.jpag.2020.07.011.

  • Brosens, S. et al. Endometriosis in adolescents is a hidden, progressive and severe disease that deserves attention, not just compassion. Human Reproduction. vol 28, issue 8. 2013. Doi: 10.1093/humrep/det243.

  • The peculiarity of adolescent endometriosis. Endonews. 2020.


Imagem: Unplash, por Soragrit Wongsa