Biomarcadores na endometriose: nova forma de diagnóstico não invasivo

A endometriose é uma doença que compromete a qualidade de vida das pacientes. E está associada com infertilidade.


Uma doença na qual as pacientes convivem com dor crônica diariamente.


Até hoje em dia, o considerado padrão ouro para o diagnóstico é a laparoscopia. Uma técnica cirúrgica que permite a visualização dos órgãos pélvicos.


Por ser uma técnica cirúrgica, existem riscos e perigos. Além do desconforto associado em uma mulher que já convive com dor.


Há muitos anos, a ciência e a medicina vem estudando e tentando descobrir uma nova forma de diagnóstico. Que seja eficiente e não doloroso. Ou seja, que seja menos invasivo.


Por ser uma doença que ainda não se entende toda a sua natureza e complexidade, outras formas de diagnóstico são hipóteses. Nada 100 % concreto foi elaborado.


Recentemente li um artigo bem interessante. O estudo, envolvendo técnicas de última geração, para identificar os famosos biomarcadores que podem estar relacionados à endometriose.


Antes de entrarmos na análise deste estudo, vamos primeiro entender o que significa um biomarcador.


Biomarcador: o que é?

A palavra biomarcador pode ter vários sentidos, mas vamos ver o sentido da ciência biomédica.


Pela medicina um biomarcador é um:


“indicador mensurável da severidade ou da presença de algum estado de doença. Mais genericamente, um biomarcador é qualquer coisa que possa ser usada como um indicador de um estado de doença particular ou algum outro estado fisiológico de um organismo”.


Traduzindo, um biomarcador é alguma coisa que aparece no nosso organismo quando estamos doentes.


Já existem diversos biomarcadores que indicam algumas doenças. Por exemplo, no nosso exame de sangue os médicos solicitam análise de TGP e TGO - são biomarcadores que indicam algum nível de lesão no fígado. Quando há alterações no níveis de TGO ou TGP no sangue, começamos a investigar qual o problema no fígado.


Se existir algum biomarcador que possa ser detectado no sangue para endometriose, a paciente que apresentar alguma alteração nesse biomarcador já entra no estado de alerta para investigar a doença. Não sendo necessário se submeter a laparoscopia.


Muito mais fácil, não é mesmo?


Mas infelizmente, ainda não sabemos quais os biomarcadores relacionados exclusivamente à endometriose.


E a investigação continua.


O estudo

Como havia mencionado, em 2021, um estudo foi publicado no periódico Scientific Reports do grupo Nature.


O título do estudo é: Análise proteômica do fluido peritoneal identificou COMP e TGFBI como candidatos a biomarcadores para endometriose.


Os autores analisaram 58 pacientes que passaram por laparoscopia devido à infertilidade. Destes pacientes, 32 possuíam endometriose e 26 infertilidade primária inexplicada (que serviram de controle).


Eles usaram a técnica de proteômica, para analisar 1360 proteínas. Identificaram 16 proteínas com valores diferentes entre as pacientes com endometriose e o grupo controle.


Como tudo na ciência, eles validaram os resultados por outra técnica - chamada ELISA.


Foi com essa validação que confirmaram diferenças significativas nos níveis da proteína de matriz oligomérica de cartilagem (COMP) e na proteína induzida por fator de crescimento transformador beta ig-h3 (TGFBI). E não viram diferenças significativas na proteína angiotensina (AGT).


Por que analisar o fluido peritoneal e não o sangue?

A procura por biomarcadores existe há anos. No início, os estudos focaram em biomarcadores encontrados no sangue. Mas este estudo, em específico, analisou biomarcadores do fluido peritoneal.


Nós sabemos que a análise de fluido peritoneal possui riscos e consiste em ser uma técnica mais invasiva. Mas estudos relacionados a este tipo de fluido podem contribuir com os avanços de identificação de biomarcadores sanguíneos.


Assim, a identificação de biomarcadores do fluido peritoneal, que representa o local de lesões do endométrio, representa um primeiro passo na identificação de biomarcadores com potencial clínico.


O que os dados indicaram:

A análise proteômica mostrou três candidatos: COMP, TGFBI e AGT. Seus níveis estavam elevados no fluido peritoneal.


Como não havia nenhum outro estudo que evidenciou esses marcadores, eles passaram pela validação na técnica de ELISA. Que revelou o aumento significativo de COMP e TGFBI mas não de AGT.


COMP é uma glicoproteína que se localiza na matrix extracelular da cartilagem. Níveis elevados de COMP já são associado com fibrinogênese (mecanismo de reparação tecidual) em esclerose, formação de quelóides, aterosclerose, fibrose pulmonar, artrite reumatóide, osteoartrite, trauma agudo e lúpus eritematoso sistêmico.


Os autores acreditam que a COMP induz o depósito de colágeno, podendo contribuir com as adesões intraperitoneais da endometriose. Níveis elevados de COMP em pacientes com endometriose indicam que a COMP tem um papel no desenvolvimento da endometriose, podendo ser um biomarcador em potencial ou até alvo terapêutico.


O TGFBI está associado com diversas doenças, como nefropatia, aterosclerose, artrite reumatóide, disfunção da córnea e doenças malignas.


Nas disfunções malignas, sabe-se da sua participação na invasão das células. Um papel similar que pode desempenhar na endometriose.


Esse foi o primeiro estudo que reportou um possível papel de TGFBI na endometriose. O TGFBI pode possuir um papel importante como ferramenta de diagnóstico, e mais ainda, pode ser um biomarcador de agressividade da doença.


Lógico que esses dados precisam ser validados em estudos posteriores, especialmente em pacientes com endometriose peritoneal.


Por ser um estudo baseado em técnicas inovadoras, esses biomarcadores vistos podem ajudar a entender melhor a fisiopatologia da doença. E a encontrarmos uma forma de diagnóstico não invasiva.


Por isso, já existem estudos em curso usando amostras de sangue das pacientes.


Perspectivas com os resultados

Dados gerados em estudos científicos trazem consigo diferentes benefícios. Entre eles, podemos destacar novas formas de diagnóstico, além de melhorar a compreensão da fisiopatologia da doença e ajudar na procura por alvos terapêuticos.


Pode parecer que esses dados não sejam tão impactantes quanto queríamos. Mas eles são. Possuem um peso na ciência e na área médica, que ajudam os cientistas a saberem qual caminho seguir para encontrar novas formas de diagnóstico e tratamento.


Formas não invasivas para que as pacientes sofram menos.

Tratamentos mais certeiros que ajudem na melhoria da qualidade de vida.


E o principal, saiba que você não está sozinha.


A comunidade científica está procurando de todas as formas como melhorar a vida das portadoras de endometriose.


Juntas somos mais fortes. Juntas em uma só voz!


Artigo escrito por Lavínia Romera



Referência:Anastasiu, C. V., Moga, M. A., Elena Neculau, A., Bălan, A., Scârneciu, I., Dragomir, R. M., Dull, A. M., & Chicea, L. M. (2020). Biomarkers for the Noninvasive Diagnosis of Endometriosis: State of the Art and Future Perspectives. International journal of molecular sciences, 21(5), 1750. https://doi.org/10.3390/ijms21051750Imagem: Unsplash por Danie Franco.