A percepção clínica das mulheres com endometriose: convivendo com a dor

A endometriose não é apenas uma doença que causa dor física. Mais do que isso, ela provoca danos psicológicos e que impactam a vida das mulheres.


A endometriose é uma doença inflamatória crônica caracterizada pelo crescimento de um tecido similar ao endométrio fora do útero. A ciência revela que 1,5% a 15% das mulheres podem desenvolver endometriose em algum momento da vida. Os sintomas podem variar entre menstruação dolorosa, sangramento anormal e disfunção intestinal e da bexiga. Também existem evidências de forte associação com infertilidade.

A clínica médica evidencia que além desses sintomas, as mulheres com endometriose possuem menor qualidade de vida. Com danos mentais e emocionais, que influenciam no seu bem-estar.

Porém, poucos estudos evidenciam esses fatores. Apesar de serem poucos, esses estudos revelam que as mulheres com endometriose apresentam uma perspectiva de vida diferente.

Vamos entender quais aspectos são mais impactados pela doença?


Aspectos Sociais

A dor impactante provocada pela endometriose afeta o trabalho, a vida sexual e os relacionamentos. Impacta as práticas esportivas e outros tipos de atividades.

A dor se torna o maior obstáculo para as mulheres. E muitas delas veem a vida social desabar. Não conseguem fazer atividades corriqueiras e ter segurança nos seus relacionamentos.

Perdem a autoestima e a própria segurança sob elas mesmas. Isso impacta diretamente na questão social. E muitas acabam se escondendo do mundo.


Relacionamentos

O impacto social se torna tão grande, que elas perdem os relacionamentos. Afinal, é difícil para o parceiro entender e compreender o nível da dor e a tristeza que elas sentem.

Mais do que isso, a sensação de incompreensão e falta de apoio interfere nos relacionamentos. E muitas se sentem sozinhas.

Mas é possível reverter esse situação.

Os parceiros podem participar das consultas para poder compreender a doença, e como ajudar. As pacientes querem que a dor acabe. Elas focam nessa sensação de alívio e bem-estar. E muitas vezes deixam de lado as necessidades sexuais. Os parceiros precisam entender e ajudá-las a manejar a dor e as crises.

Infertilidade


Um dos momentos mais difíceis na vida dessas mulheres é saberem das chances diminuídas de engravidarem. Essa informação causa estresse, ansiedade e preocupação. Muitas sentem que o sonho de ser mãe foi destruído. É um golpe enorme e que atormenta.


A infertilidade é mais um fato que deve ser absorvido. É necessário muita compreensão e aceitação. Aceitar a endometriose e entender como ela afeta os sonhos e futuro.


A possibilidade de engravidar existe, mas é menor. Não é impossível. É difícil. E esse é um momento complicado na vida dessas mulheres. Aceitar que as chances são menores. Aceitar que a gravidez pode não acontecer.


É uma notícia desgastante. Um fato que pode mudar os sonhos e planejamentos.


Saúde Mental


Mulheres com endometriose podem ter sua saúde mental comprometida. Depressão e ansiedade estão interligados.


A carga que essas mulheres carregam é pesada. Elas precisam lidar com os sintomas diariamente e os efeitos colaterais dos tratamentos. Tomar decisões sobre tratamentos. Não receber o apoio que necessitam. Viver com incertezas. Ver sonhos sendo alterados. Além do convívio com uma dor crônica.


As pacientes sofrem com a endometriose. E esse sofrimento abala a saúde mental.


Coexistir com esse tipo de dor é desafiador. Os danos psicossociais existem. E as prejudicam. Por isso a necessidade de apoio. De entendimento da doença.


As pacientes com endometriose precisam saber que não estão sozinhas. Que elas são ouvidas. E não esquecidas.


O convívio


Mais do que isso, a clínica médica e os profissionais de saúde precisam estar atentos aos sintomas, reclamações e descobrir maneiras de ajudar. Seja escutando, ou indo atrás de terapias alternativas.


Uma rede de apoio. Alguém que entenda. Esse pode ser o diferencial para a paciente conseguir aprender a viver com essa dor.


Afinal, por não ter cura, é necessário conviver com a endometriose. E nós podemos ajudá-las.



Artigo escrito por Lavínia Romera




Referência:

Young K., Fischer J., Kirkman M. Clinicians' perceptions of women's experiences of endometriosis and of psychosocial care for endometriosis. Australian and New Zeland Journal of Obstetrics and Gynaecology. 2017. doi: 10.1111/ajo.12571.


Imagem: Unplash, por Anthony Tran.