A dor, o suporte social e a endometriose

Com o avanço da pandemia de COVID-19, a Organização Mundial de Saúde (OMS) alertou que medidas severas seriam necessárias, para conter a doença.


Uma das medidas, que acabou se tornando a mais controversa, foram os lockdowns. Ou as famosas quarentenas. O isolamento e distanciamento social ajudam a diminuir a transmissão do vírus. Uma tentativa de impedir o colapso dos sistemas de saúde.


Um isolamento social não é simples. Requer estratégia e cuidado com a população. Algo, que infelizmente, não ocorreu de maneira correta no mundo inteiro.


Pensando nesse isolamento, um grupo de cientistas investigou o impacto na percepção de dor em mulheres com endometriose.


Como foi feito?

De forma simples e científica, aplicaram um questionário para entender a percepção da dor das pacientes.


O questionário foi colocado em plataformas on-line de grupos de apoio à mulheres com endometriose. Esse questionário era simples. As pacientes informam a intensidade da dor (de acordo com uma escala) e o quanto a dor interferia nas atividades diárias. O relato foi feito antes e depois da quarentena.


Ao todo, 258 pacientes completaram o questionário. Informando a intensidade da dor, o que sentiam e se possuíam algum suporte social.


Um dos sintomas mais comuns na endometriose é a dismenorreia. Mas durante a pandemia houve menos relatos desse sintoma. Entretanto, houve uma queda no suporte social, seja do parceiro, da família e de amigos.


O distanciamento social afetou?

O estudo foi além de verificar os níveis de dor. Mostrou um aspecto importante na conscientização da endometriose. Uma interferência externa na rede de apoio, quebra o acolhimento social e mental.


Isso impacta diretamente as portadoras de endometriose.

Uma ruptura brusca na mais íntima característica humana, que é a socialização, causa danos psicológicos e emocionais.

O estudo apresenta algumas limitações metodológicas, mas a essência da discussão foi levantada.


Ao tentarmos proteger os mais vulneráveis de um vírus como o SARS-CoV-2,esquecemos das outras pessoas. Das que sofrem diariamente com uma dor e precisam de apoio.


Isolar pessoas que precisam de apoio pode gerar impactos enormes na vida delas. Mas a questão não é apenas essa.


Quando pensamos em quarentenas, devemos preparar nosso sistema de saúde e social para poder manter e acolher a todos.


O sistema de saúde precisa estar preparado para prover todo o cuidado médico, social e emocional quando passamos por períodos complexos. Também há necessidade de aumentar a conscientização sobre a endometriose, e incentivar as pacientes a participar de grupos de apoio.


São nesses grupos que elas encontram um local para falar sobre o que sentem, seja a dor física ou emocional. E assim, elas sabem que nunca estarão sozinhas.


É necessário falar

Os pesquisadores afirmam que outros estudos precisam ser conduzidos para elucidar. Só assim, conseguimos entender a complexidade da relação entre as pacientes, sua dor e a rede social em que vivem.


Há muitos fatores envolvidos. Toda essa mudança social que a pandemia trouxe, quais serão os resultados a curto e longo prazo? É uma pergunta que ainda não temos respostas.


Mas a ideia principal aqui é da necessidade de ter uma voz para a endometriose. Conscientizar, falar, ser ouvida.


Pouco a pouco vamos conseguir.


Juntas em uma só voz!


Artigo escrito por Lavínia Romera





Fonte:Schwab R, Anić K, Stewen K, Schmidt MW, Kalb SR, Kottmann T, et al. (2021) Pain experience and social support of endometriosis patients during the COVID-19 pandemic in Germany – results of a web-based cross-sectional survey. PLoS ONE 16(8): e0256433. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0256433.Imagem: Unsplash por Vladyslav Tobolenk.